sexta-feira, 3 de maio de 2013

Resenha: Corações de neve

Série: Dragões de Éter
Autor: Raphael Draccon
Páginas: 494
Editora: Leya



Nova Ether é um mundo protegido por poderosos avatares em forma de fadas-amazonas. Um dia, porém, cansadas das falhas dos seres racionais, algumas delas se voltaram contra as antigas raças. E assim nasceu a Era antiga. Hoje, Arzallum, o Maior dos Reinos, tem um novo rei, e a esperada Era Nova se inicia. Entretanto, coisas estranhas continuam a acontecer. Uma adolescente desenvolve uma iniciação mística proibida, despertando dons extraordinários que tocam nos dois lados da vida. Dois irmãos descobrem uma ligação de família com antigos laços de magia negra, que lhes são cobrados. Este é o segundo romance da trilogia, escrito por Raphael Draccon. O promissor roteirista e escritor já teve seu trabalho elogiado por produtores de Hollywood.

Raphael Draccon já havia me surpreendido com Caçadores de Bruxas, o primeiro livro da série. Contos de fadas remodelados e entrelaçados, aventuras, romance, num estilo próprio e inovador, coberto de filosofia e reflexão. Corações de Neve continua sendo tudo isso, só que ainda melhor. Dá sequência à saga dos personagens com segurança, mantém a proposta de misturar referências clássicas e pops no enredo.

O que Corações de Neve faz é elevar esses elementos ao patamar superior. Desprendido da tarefa de apresentar personagens e suas histórias ao leitor, a narrativa assume um ritmo envolvente e fluído, conduzindo a história muito bem, com momentos e velocidades distintas. Há situações em que é impossível deixar o livro, em que a aventura toma conta dos páginas e você está lá, de coração apertado e unhas roídas. Outras são tensas e delicadas, envolvidas em amarras complicadas e um tanto obscuras. Algumas páginas são puro encanto, puro sonho, com as quais é impossível não se identificar e encontrar alguma ligação com a sua própria história.


Esse é o triunfo do autor: transformar as páginas em uma espécie de espelho. Por mais fantasiosos que os cenários sejam, por mais improváveis - para o nosso mundo - que sejam as situações, sempre há uma ligação direta com algo da memória, do coração, dos sonhos de quem lê. As vivências narradas na obra são diferentes, mas os sentimentos expressos são absolutamente humanos: o orgulho, o medo, a honra, o desprendimento, a dor, a coragem e, sempre ele, o amor. Você lê e algo na sua consciência estabelece uma conexão com a sua própria vida, te impedindo de continuar distante ou indiferente. E os personagens crescem (nos diversos sentidos que essa palavra pode assumir), e você também.

O estilo de Draccon é refinado neste segundo livro. O desenvolvimento das frases, a maneira como ele coloca-se nas palavras são sensivelmente aperfeiçoados nesta obra. Não que Caçadores de Bruxas não seja bem escrito, mas Corações de Neve é inegavelmente o melhor. Mantendo sua postura de contador de histórias, o narrador apura sua técnica, interferindo menos na história, deixando mais pistas para o leitor construir sozinho certos aspectos.

Diretamente ligado ao cinema, as histórias são contadas paralelamente, "cortadas" inúmeras vezes (o que pode incomodar os mais impacientes). Generalizando, pode-se dizer que cada capítulo é dedicado para um núcleo da narrativa e, para saber como um acontecendo se desenrola, é preciso voltar os olhos para outro e outro antes de retornar para aquele. Não é fácil de acompanhar no princípio, mas vale o esforço. De forma inteligente, as diferentes vidas vão aproximando-se ao longo da trama, provando a influência que todos exercem uns sobre os outros, sendo você rei ou ladrão.

Corações de neve é um livro envolvente e abrangente. Não há como simplesmente dizer sobre o que se trata... são coisas demais. Não é possível dizer se é uma aventura, uma obra de fantasia, um romance ou uma alegoria filosófica. Corações é tudo isso. Assim como a vida...

Bom, talvez seja esse então o grande tema.


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