sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Texto: Caos particular


Eu queria ter covinhas, meu dedão do pé é comprido, meu cabelo não é lisinho da Silva e eu tenho celulite. Além disso, sou impaciente, cabeçuda, coloco pouco sal na comida e não gosto de pimentão. Quer saber mais? Nunca aprendi a descascar laranjas, fico horrível de roupa marrom, meu dente entortou depois que o siso nasceu, meu dedão da mão direita é diferente do da esquerda, tenho quadril largo e sou péssima em matemática. Conto nos dedos até hoje, detesto lavar panelas, não gosto de shopping, não consigo curtir música sertaneja e me arrepio só de ver uma lagartixa ou sapo.

Meu guarda-roupa vive bagunçado, não gosto de passar roupa, não sou lá muito chegada em tarefas domésticas e nunca consegui plantar bananeira. Tenho alguns medos que não me deixam, um pensamento acelerado e um humor terrível quando estou com sono ou fome. Não gosto quando eu estou falando ultra sério e você ri. Sou irônica, debochada e maldosa quando quero.

Já tive pensamentos ruins a seu respeito. Mas não se preocupe: já pensei coisas ruins de mim também. E sobrevivi. Tem dias que eu só sobrevivo. E tem outros que nem eu me aguento. De vez em quando tenho vontade de colocar o pé no mundo, mas sinto falta do que ainda não vivi aqui, com você. Então eu fico e deixo tudo pra lá.

Fico um pouco receosa em relação ao futuro, sabe como são as dúvidas, eles vivem nos cercando. Me preocupo demais com a minha vida, com a sua, com a de gente que mal conheço. Me importo demais com coisas, pessoas e situações que não têm tanta importância assim, não. Crio caso com pouca coisa, não sou tolerante, fico nervosa à toa e dou corda para construções tortas de pensamentos toscos.

Deixei alguns oportunidades escaparem pelos meus dedos. Já me arrependi de ter falado. E de não ter dito nada quando devia dizer. Acabei me acostumando com o que não deveria. Me frustrei por não receber o que esperava, depois me culpei por ter esperado algo: a gente nunca deve esperar nada, nada de alguém. Já me decepcionei com quem era importante pra mim e descobri que é assim mesmo: a gente magoa e é magoado a todo instante. E a vida é assim mesmo, muito obrigado.

Nunca acreditei em lobo mau, bicho papão e mula sem cabeça, mas tenho lá meus fantasminhas e demônios que insistem em me atormentar faça chuva ou faça sol. E eu procuro me esconder embaixo da cama, entrar em labirintos, procurar esconderijos. Nem sempre consigo. Às vezes, não acredito em mim e dou muita bola para o que dizem. Então, respiro fundo, tento me achar no meio desse caos que eu sou e penso: mesmo defeituosa, eu mereço alguma paz. E vou em busca do que eu acho certo. Custe o que custar.


- Clarissa Corrêa

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